Portugal consolida-se como um dos principais destinos europeus para data centers

Diego Velázquez
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Mercado nacional deve crescer 20% ao ano até 2031, impulsionado por investimentos da Microsoft, AtlasEdge e Digital Realty

Portugal está a reforçar a sua posição como um dos mercados emergentes mais dinâmicos da Europa para a instalação de data centers, impulsionado pela expansão da computação em nuvem e pelo crescimento acelerado da Inteligência Artificial. Segundo um relatório divulgado em julho pela consultora ResearchAndMarkets, o mercado português de data centers deverá crescer a uma taxa anual composta de 20% entre 2025 e 2031, com Lisboa a destacar-se como a localização mais procurada por operadores internacionais. O crescimento já é visível no terreno: a capacidade de tecnologia de informação planeada para a região de Lisboa passou de 373 megawatts para mais de 1.300 megawatts em cerca de um ano, segundo dados da consultora Colliers Portugal. Entre os investimentos mais expressivos está o reforço da Microsoft no data center em hiperescala da Start Campus, em Sines, considerado um dos maiores projetos tecnológicos da empresa na Europa.

O crescimento do mercado e os números por trás da expansão

De acordo com o relatório “Portugal Data Center Market, Investment Analysis and Growth Opportunities 2026-2031”, divulgado pela ResearchAndMarkets, o mercado nacional está avaliado atualmente em cerca de 3,89 mil milhões de dólares, com uma trajetória de crescimento sustentada até ao final da década.

O documento aponta a transição do investimento internacional dos tradicionais mercados FLAP (Frankfurt, Londres, Amesterdão e Paris) para localizações mais competitivas em termos energéticos e fiscais, entre as quais Portugal surge como destino privilegiado, sobretudo devido a incentivos fiscais disponíveis na Zona Franca da Madeira e nos Açores.

Segundo a consultora Colliers Portugal, a capacidade operacional de data centers em Lisboa aumentou de 20 para 25 megawatts de tecnologia de informação nos últimos seis meses, impulsionada pela entrada em funcionamento do primeiro centro de dados da AtlasEdge na cidade, identificado como LIS001.

Já a capacidade planeada para a região ultrapassa atualmente os 2,6 gigawatts, um valor que reflete o interesse crescente de operadores internacionais em instalar infraestruturas digitais de grande escala no país, de acordo com o relatório da consultora, que cobre o período entre outubro de 2025 e março de 2026.

Os grandes investimentos que estão a moldar o setor

O investimento mais mediático do setor está associado à Start Campus, empresa responsável pelo data center em hiperescala de Sines, que vai receber um dos maiores investimentos da Microsoft na Europa. Segundo Brad Smith, vice-presidente e presidente da Microsoft, a tecnológica vai implementar 12.600 unidades de processamento gráfico NVIDIA de última geração, num investimento avaliado em 10 mil milhões de dólares.

A operadora Merlin Edged, por sua vez, projeta 1.300 megawatts de tecnologia de informação para a sua infraestrutura em Portugal, posicionando-se como candidata a acolher uma futura gigafábrica de Inteligência Artificial da União Europeia. A empresa tem atualmente 80 megawatts em construção, com conclusão prevista para o final de 2027.

A AtlasEdge garantiu um financiamento de 253 milhões de euros para expandir o seu campus em Lisboa até aos 30 megawatts de capacidade, enquanto a Digital Realty entrou recentemente no mercado português através da aquisição de uma instalação com 2,4 megawatts em Carcavelos, perto de cabos submarinos de telecomunicações, com entrada em operação prevista para 2027.

Fora da região de Lisboa, Guimarães vai também acolher um novo data center, promovido pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, com um investimento total de 5,1 milhões de euros, destinado a alojar supercomputadores e sistemas digitais de apoio à investigação científica no campus de Azurém da Universidade do Minho.

O papel da Inteligência Artificial no crescimento do setor

O relatório “Global Data Centers Outlook 2026”, elaborado pela consultora JLL, estima que a capacidade global instalada de data centers passe de 103 para cerca de 200 gigawatts até 2030, um crescimento anual composto de 14%, sustentado sobretudo pelo avanço da Inteligência Artificial.

Segundo o mesmo estudo, a Inteligência Artificial representava, em 2025, apenas cerca de um quarto das cargas de trabalho processadas nos data centers a nível mundial. A previsão é de que, a partir de 2027, as tarefas de inferência ultrapassem o treino de modelos como principal necessidade computacional, passando a representar cerca de metade destas cargas de trabalho.

Para sustentar este crescimento, a JLL estima ser necessário um superciclo de investimento que pode atingir os três biliões de dólares até 2030, dos quais cerca de 1,2 biliões deverão corresponder à criação de valor imobiliário e o restante ao equipamento das instalações com infraestrutura de tecnologias de informação.

Portugal surge, neste contexto, como um dos beneficiários diretos deste ciclo de investimento, muito por conta da sua conectividade internacional através de cabos submarinos, do acesso a energia renovável e do apoio institucional a projetos de grande escala, fatores destacados pela Colliers Portugal como determinantes para atrair operadores internacionais.

O crescimento do setor de data centers em Portugal reflete uma tendência mais ampla na Europa, onde a corrida à Inteligência Artificial está a redesenhar os mapas de investimento em infraestrutura digital. Com projetos como o de Sines, ligado à Microsoft, e a chegada de operadores como AtlasEdge e Digital Realty a Lisboa, o país aproxima-se de um patamar que há poucos anos parecia reservado a mercados mais consolidados, como Frankfurt ou Amesterdão. O desafio que se coloca agora às autoridades portuguesas passa por garantir que esta expansão seja acompanhada de capacidade energética suficiente e de infraestrutura adequada, de forma a que o crescimento anunciado nos relatórios internacionais se traduza, de facto, em operações plenamente funcionais nos próximos anos.

Fontes:
idealista/news | Tek Sapo | GlobeNewswire | Observador | echoboomer.pt

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