Plano do Executivo inclui investimento de 25 milhões de euros e criação de um Centro de Excelência em IA na Administração Pública
O Governo português avançou com um conjunto de medidas destinadas a acelerar a atração de especialistas internacionais em Inteligência Artificial, através de um processo de vistos mais rápido, no âmbito da Agenda Nacional de Inteligência Artificial (ANIA). A iniciativa, aprovada em Conselho de Ministros, integra a Estratégia Digital Nacional e tem como objetivo aproximar Portugal dos países europeus mais avançados na aplicação desta tecnologia à economia e ao Estado. Segundo o Executivo, a produtividade nacional está atualmente limitada a 75% da média europeia, um dos argumentos usados para justificar a aposta na IA como motor de crescimento económico e de modernização da Administração Pública. O plano prevê ainda um investimento direto de 25 milhões de euros na adoção de soluções de Inteligência Artificial pelos serviços públicos, além de iniciativas voltadas para a academia e para a sensibilização da população em geral.
Vistos mais rápidos e investimento na Administração Pública
Uma das medidas mais visíveis do plano passa pela agilização do processo de vistos para especialistas estrangeiros em Inteligência Artificial, uma resposta direta à dificuldade que empresas e centros de investigação portugueses têm sentido para atrair e reter talento qualificado nesta área.
Para a Administração Pública, o Governo reservou um investimento de 25 milhões de euros, destinado à adoção de soluções de Inteligência Artificial a partir do primeiro semestre deste ano. Entre as iniciativas previstas está a criação de um Centro de Excelência em IA, com a missão de desenvolver, testar e escalar soluções aplicadas aos serviços públicos.
O centro deverá concentrar esforços em áreas consideradas prioritárias, como a saúde, a justiça e a defesa, setores em que a aplicação de Inteligência Artificial pode ter impacto direto na eficiência dos serviços prestados aos cidadãos, segundo a informação divulgada pelo Executivo.
Além da criação do centro, o plano prevê a coordenação transversal entre diferentes entidades públicas, de forma a evitar a duplicação de esforços e a garantir que os projetos de Inteligência Artificial desenvolvidos numa área possam ser replicados noutros serviços do Estado.
Formação, investigação e sensibilização da população
Na área académica, o Governo quer criar um suplemento para doutoramentos e projetos de investigação ligados à responsabilidade no uso da Inteligência Artificial, com destaque para abordagens que combinem engenharia com ciências sociais e humanas.
Entre os temas privilegiados para financiamento constam a justiça social e a desigualdade associada à IA, a ética e a filosofia da tecnologia, a psicologia cognitiva aplicada à interação entre humanos e sistemas de IA, além da economia da Inteligência Artificial e o seu impacto no mercado de trabalho.
Para sensibilizar a população em geral, o Executivo vai lançar, a partir do segundo semestre deste ano, a Semana Nacional da Inteligência Artificial, com demonstrações práticas e eventos abertos ao público em espaços educativos e culturais espalhados pelo país.
Está também prevista a campanha “Geração IA”, pensada para inspirar jovens a seguir carreiras ligadas à tecnologia, promovendo o acesso a oportunidades académicas, técnicas e profissionais dentro do ecossistema de Inteligência Artificial em Portugal.
O desafio de reter talento e o atraso europeu na IA
Apesar das medidas anunciadas, especialistas ouvidos recentemente durante um painel na Web Summit Rio 2026 alertaram para o facto de a Europa estar a ficar para trás na corrida da Inteligência Artificial, quando comparada com outras regiões do mundo, nomeadamente os Estados Unidos e a China.
Segundo dirigentes ligados à Startup Portugal, reter talento continua a ser um dos maiores obstáculos para o ecossistema nacional de Inteligência Artificial, com os impostos elevados e a burocracia a funcionarem como barreiras adicionais para empresas e investigadores que consideram fixar-se no país.
Estudos recentes de consultoras internacionais, como a Boston Consulting Group, indicam que uma parte significativa das empresas ainda não consegue capturar valor real dos investimentos feitos em Inteligência Artificial, apesar de já destinarem uma fatia relevante da receita a esta área.
Este cenário reforça a pressão sobre o Governo para que as medidas anunciadas na Agenda Nacional de Inteligência Artificial se traduzam, na prática, em resultados concretos, tanto na atração de talento como na modernização efetiva dos serviços públicos através da tecnologia.
A Agenda Nacional de Inteligência Artificial surge como uma tentativa de Portugal recuperar terreno numa área já considerada decisiva para o crescimento económico dos próximos anos. Entre vistos mais rápidos, investimento direto na Administração Pública e iniciativas de sensibilização junto da população, o plano do Governo tenta responder a um desafio que é, ao mesmo tempo, tecnológico e humano: atrair e reter os especialistas capazes de transformar o potencial da Inteligência Artificial em valor económico e social real para o país. Os próximos meses serão decisivos para perceber se as medidas anunciadas conseguem, de facto, colocar Portugal mais perto dos países europeus mais avançados nesta área.
Fontes:
Diário da República | ECO | Dinheiro Vivo / DN