Taiza Tosatt Eleoterio fala sobre sinais de sofrimento em crianças expostas à violência e por que surgem de formas tão diferentes

Thomas Norford
5 Min Read
Taiza Tosatt Eleoterio

A psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, especialista em saúde mental e relações familiares, observa que as crianças expostas a ambientes violentos raramente comunicam o que sentem através de palavras directas ou claras. O sofrimento manifesta-se em diferentes áreas da vida da criança, e reconhecer esses sinais em conjunto costuma ser mais revelador do que procurar um único indício isolado que, por si só, confirme a existência de um problema.

Sinais no corpo: dores e alterações físicas

O corpo costuma falar antes de a consciência conseguir nomear alguma coisa. Dores de cabeça e de estômago sem uma causa médica identificada, alterações do sono, como pesadelos ou dificuldade em adormecer sozinha, e mudanças bruscas no apetite estão entre os sinais físicos mais comuns nestas situações. Uma criança que passa a recusar comida ou a comer em excesso, sem qualquer motivo aparente, pode estar a reagir a uma tensão interna que ainda não consegue verbalizar com clareza.

Taiza Tosatt Eleoterio refere que estes sintomas costumam ser tratados de forma isolada, como um problema de saúde qualquer, sem que se investigue cuidadosamente a origem emocional que muitas vezes está por detrás deles, sobretudo quando os exames médicos não encontram nenhuma causa física aparente.

Sinais no comportamento: isolamento ou agressividade

As reacções comportamentais variam bastante de uma criança para outra, dependendo da personalidade e do momento específico de desenvolvimento em que se encontra. Algumas tornam-se mais agressivas, reproduzindo em casa ou na escola o padrão de conflito que observam no seu ambiente familiar. Outras fazem o caminho oposto: retraem-se, evitam chamar a atenção e desenvolvem um comportamento excessivamente obediente e demasiado silencioso para a idade.

Este segundo padrão costuma ser mais difícil de identificar do que o primeiro, porque uma criança “fácil demais” raramente é vista como alguém que precisa de ajuda, quando, na realidade, pode estar a tentar não acrescentar mais peso a um ambiente que já sente como instável.

Sinais na vida escolar e social

Na escola, estes sinais costumam surgir como uma descida no desempenho académico, dificuldade de concentração nas actividades ou mudanças na forma como a criança se relaciona com os colegas, seja isolando-se, seja envolvendo-se em conflitos com mais frequência do que anteriormente.

Taiza Tosatt Eleoterio, neste contexto, destaca que os professores costumam estar numa posição privilegiada para detectar estas mudanças, uma vez que observam a criança em contextos diferentes daqueles vividos pela própria família, o que pode revelar padrões que passam completamente despercebidos em casa. Uma queixa recorrente de dores de barriga sempre às segundas-feiras, por exemplo, pode dizer muito mais sobre o fim de semana vivido em casa do que sobre qualquer questão exclusivamente escolar.

Sinais mais subtis, fáceis de passar despercebidos

Alguns sinais são demasiado discretos para chamar imediatamente a atenção de qualquer adulto. Taiza Tosatt Eleoterio refere que uma criança que se sobressalta com sons repentinos, que evita falar sobre a própria casa quando questionada ou que assume um papel de cuidadora dos irmãos mais novos antes do que seria esperado para a sua idade pode estar a manifestar sinais de sofrimento.

Este tipo de amadurecimento precoce, embora por vezes seja elogiado pelos adultos como sinal de responsabilidade e maturidade, pode esconder uma sobrecarga emocional que a criança não deveria estar a suportar sozinha nesta fase da vida.

Reconhecer o conjunto, não o sinal isolado

Nenhum destes sinais, por si só e de forma isolada, confirma definitivamente a exposição à violência. É a combinação entre eles, sobretudo quando surgem de forma repentina e persistem durante várias semanas, que merece uma atenção mais próxima por parte dos adultos responsáveis.

Em síntese, Taiza Tosatt Eleoterio conclui, salientando que observar com cuidado, sem alarmismo e sem pressa para atribuir rótulos prematuramente, é o que permite que uma criança receba apoio antes de o sofrimento se tornar mais difícil de identificar e tratar posteriormente, já na adolescência.

Compartilhar esse artigo
Deixe um comentário